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domingo, 27 de maio de 2012

superação


Quando não somos capazes de ver para além do metro quadrado que transitoriamente ocupamos e quando a nossa intuição não nos projecta para além do tempo mais ou menos escasso em  que cada um  resiste á dinâmica do transitório, ficamos embrenhados num labirinto onde aquilo que parecia uma promissora saída nos introduz num ponto de partida do qual queríamos a todo o custo descolar.

Enfrentar o medo é uma tarefa difícil e que duma forma ou de outra  requer ousadia, risco de perda, superação da paralisia, desinstalação do nosso buraco e partida para o desconhecido. Pensar que estamos imunes ao medo é estultícia que só a mais profunda e por vezes inconsciente alienação pode suportar. Se tenho medo de enfrentar o futuro tento distrair-me com o esgotamento do presente, mas como o presente não é mais que um arroto, por vezes azedo, entre o antes e o depois, acabo por ir vivendo com um profundo , irritante e sintomático amargo de boca. Não consigo saborear a vida pois a confiança no futuro é o adoçante que ameniza o desconforto do presente.

Neste fim de semana em muitas localidades fazem-se festas em honra do Espírito Santo. Não somos capazes de definir Quem é o Espírito Santo, mas segundo os relatos que nos chegam a presença do Espírito Santo transformou o medo em ousadia, a ignorância em sabedoria, a perseguição em libertação, o acanhamento em desenvoltura e a desilusão em promessa de sucesso. É-nos referido que quando somos capazes de aceitar que Deus assume a nossa dimensão humana é Natal, que quando acreditamos que a dimensão humana é introduzida na dimensão divina é Páscoa e que quando nos deixamos conduzir  pela novidade que irradia dessa nova dimensão e que o presente não se esgota em si mesmo é  Pentecostes.

domingo, 13 de maio de 2012

A Senhora da charneca

   
Neste dia 13 de Maio encontram-se reunidas numa antiga charneca, lá para os lados de Fátima, umas centenas de milhares de pessoas oriundas das mais diversas paragens. Umas querem ver, outras celebrar, mas todas se movimentam atraídas pela sua própria motivação. Esta concentração  a ocorrer no centro da nossa Lisboa faria esquecer qualquer outra manifestação das muitas a que vamos assistindo e que chamam muito justamente a nossa atenção para a diversidade dos problemas que questionam a nossa sociedade. Já não falo dos estádios da nossa cidade que se enchem para verem extasiados 22 rapazes, vigiados por uns inspectores chamados árbitros, a correr atrás duma bola para ver quem a consegue encaixar nuns espaços chamados balizas.

Mas o que aconteceu lá na charneca que atrai, como se dum íman se trate, tanta gente que se entusiasma por chegar, se alegra com o estar e depois recorda com saudade a experiência de ter pisado aquelas paragens? Alienação! responderão os pseudo-racionais. Ignorância! responderão os pseudo-omniscientes. Sub- desenvolvimento! responderão os que se assumem como as primícias da nova sociedade. Turismo! responderão os que desconhecem a sua terra, mas vão apreciar umas quaisquer Berlengas situadas no outro lado do planeta.

O curioso é que perante tal multidão ficamos pensativos, cheios de perguntas, com a sensação de quem se quer encontrar e o pressentimento de que algo nos atrai e nos interpela. Ser seduzido pelo invisível e caminhar sentindo a terra que pisamos é uma experiência que nos orienta lá para as bandas do Sol Nascente que já ilumina o nosso hoje, mas que anuncia o nosso amanhã.

Algo de inteiramente novo e diferente aconteceu e acontece naquela charneca que duma maneira ou outra nos seduz e nos faz erguer o rosto para o alto onde até o sol parece dançar a dança da luz.

Senhora da charneca a nossa terra orgulha-se por teres deixado no meio de nós um sinal da tua presença amável, própria da presença duma boa mãe. É uma terra magra, cheia de pedras e abundante de espinhos. Transformá-la em terra fértil que dê pão para todos é tarefa árdua e que vai deixando as suas vítimas. Necessitamos da Tua ternura que vá cicatrizando as nossas muitas e por vezes profundas feridas.


domingo, 6 de maio de 2012

O fundamental


 
Impressionou-me neste fim de semana a síntese que o Apóstolo João, já na fase mais vetusta da sua vida e certamente resultado duma profunda e analítica reflexão, faz no capº 3º da sua 1ªcarta aos cristãos seus contemporâneos acerca do que considera como fundamental. João com toda a simplicidade e duma forma fácil de compreender explica que existe um mandamento fundamental: "acreditarmos no nome de Jesus Cristo, como Filho de Deus, e amarmo-nos uns aos outros, como Ele nos mandou".

Ao longo da história temo-nos empenhado, na senda do que era típico do judaísmo contemporâneo de Jesus, em construir um sistema normativo que nos tem feito prisioneiros dum emaranhado de leis e preceitos, interpretados por especialistas devido à menoridade instalada, explorada e cultivada no comum dos fiéis. Fomos sendo assumidos como ignorantes, surgindo assim os estatutariamente leigos, o mesmo é dizer os oficialmente ignorantes. É certo que hesistiram raras e honradas excepções, mas todas elas foram constituídas em exemplos para lenitivo do peso da ignorância e das incapacidades que se abate sobre o "comum".

É para mim extremamente gratificante e libertador ouvir pela voz autorizada do Apóstolo João afirmar com toda a simplicidade que a proposta que me é feita é que reconheça Jesus Ressuscitado, a Ele adira como Caminho,Verdade e Vida, O aclame como Libertador da tragédia da minha mortalidade e que assuma uma forma nobre de me relacionar com todos os demais, isto é, amar a todos pois todos são meus iguais em dignidade. Obrigado João Apóstolo!


domingo, 22 de abril de 2012

forasteiro


Muitas vezes na vida e mormente quando vemos que as nossas certezas, as nossas seguranças e as nossas melhores expectativas  se desmoronam, o melhor que nos pode acontecer é que alguém, que caminhe o mesmo caminho da vida, se interesse pelas nossas preprexidades e nos ajude a descobrir o sentido daquilo que nos surge como sem sentido. Não resolve tudo mas é como se uma pequena luz se acendesse dentro de nós iluminando a confusão que parece paralizar a nossa capacidade de ver, de analisar e de confrontar a realidade com o sonho, a promessa com o acontecido, a intuição com a realidade. Esse forasteiro torna-se numa porta aberta para a descoberta da novidade que se apresenta quando somos capazes de aceitar viver sem todas as certezas e sem todas as seguranças. Acabamos por descobrir que as respostas se encontram fora de nós e que a aparência pode ou não ser manifestação da realidade. Somos de facto aquilo que a relação com os demais nos ajuda a ser.

sábado, 14 de abril de 2012

fragilidade



Nada mais fraco e desprotegido que aquele que adormece à sombra do chapéu a que chama segurança e fortaleza. Qualquer rajada de vento vira o chapéu e ou acorda para uma nova realidade, ou fica sujeito á intempérie e ás consequências supervenientes. Sempre que pensamos que somos senhores do universo, este rápidamente demonstra que não aceita tiranos, mas apenas humildes servidores. Sempre que nos parecer que conseguimos ver  e expressar toda a verdade o melhor é marcar uma consulta para o oftalmologista pois é sinal duma perigosa miopia  ou de cataratas em estado avançado.

Encontrar graça á desgraça ou brincar com a fraqueza é afirmação de mediocridade. Servir-se  da insegurança, da dependência, ou da amargura alheia para conseguir vantagens é manifestação de mesquinhês e garantia de que dali só serão de esperar chantagem, desilusões e manipulação.

O primeiro passo para avançar é aceitar os momentos de desequilibrio e insegurança resultantes do facto de ficar momentaneamente apoiado só num pé. Quem quiser não mudar os pés do mesmo sítio corre o risco de se transformar em estaca que dificulta o caminho de quem não desiste de avançar.

A fragilidade da força é a auto-suficiência que dificulta o diálogo incondicional e a força da fragilidade é a convergência das frágeis forças dispersas que transformadas em bloco são capazes de ser suporte consistente de novo edifício. Não se trata de unanimismo mas de sintonia de esforços para remover obstáculos que pareciam inamovíveis.

domingo, 4 de março de 2012

Cada vez mais do mesmo

Tudo indica que no que toca aos ideais da liberdade, da  igualdade e da fraternidade os progressos são muito mais no sentido negativo do que no sentido da realização individual e colectiva. Apesar das encenações levadas a efeito para serem ampliadas pela comunicação social, fico com a desencantada sensação de que o que mais interessa é arregimentar as hostes para em tempo julgado oportuno avançar para a conquista da fortaleza do poder. O que seria dos nossos políticos se não tivessem atrás de si os holofotes e as câmaras da televisão? Seriam ainda reconhecidos por algo de importante que tenham feito a favor deste povo? Teriam ainda algo de motivador e construtivo a transmitir? Continuariam a sair ás praças da cidade e ás ruas das aldeias para levarem a mensagem mobilizadora e sem medo de mostrar a sua diminuta estatura? Quando virá o dia em que as organizações e instâncias   responsáveis pela penúria em que estamos colectivamente mergulhados tenham a coragem de assumir que foram os obreiros da calamidade que avança impiedosa sobre milhões de portugueses? Se não há a coragem para assumir o fracasso como se pode ter a ousadia de se apresentarem perante a sociedade como libertadores da opressão que os próprios promoveram?

Chegou a notícia de que foi descoberto um primeiro lote de trezentos que transferiram milhões para os chamados paraísos fiscais. Já se sabe de há muito que uma minuria deste povo é senhora da grande  maioria dos bens e recursos e que uma maioria deste mesmo povo vive e trabalha para alimentar a manutenção desta forma absurda de gerir o bem comum. Será que muitos não poderiam viver muito bem com um pouco menos e que muitos mais poderiam viver um pouco menos mal com um pouquito mais?

Apesar de todas as contradições continuo a apoiar, ainda que com a eficiência da minha  insignificância, todos os esforços que os homens sérios e justos deste meu país estão fazendo para colectivamente sairmos desta situação deprimente que avança mais rápido que qualquer doença contagiosa.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Homenagem

Hoje  proponho-me homenagear o poder que não gera escravos. Hoje quero proclamar que existe Alguém que exerce o seu poder sem tirania, nem exploração, nem necessidade de acumular, nem medo de perder reconhecimento. O meu reconhecimento, aplauso e aclamação para Aquele que surgindo da noite abre para todos a janela por onde entra a luz radiante do novo dia e a porta que dá acesso ao futuro. Alguém emergiu na nossa história humana que não se apoiou nem na força das armas, nem no poder económico, nem na sedução demagógica, nem na supremacia da cultura e da ciência, mas tão só na capacidade inesgotável de se dar para que a ninguém falte o sentido da vida. Ontem celebrou-se a festevidade de Cristo Rei.

Esta atitude leva-me a desejar sucesso a todos quantos exercem o poder que lhes foi dado  com respeito, temor e espírito de serviço. Quem tem o poder de construir, construa e não destrua, quem tem o poder de governar governe, quem tem o poder de restaurar  respeite o que de bom existe, quem tem o poder de servir  não se deixe transformar de servidor em dominador. As épocas de crise são propícias ao surgimento de demagogias pseudo-democráticas, ao aproveitamento do natural descontentamento para fins não esplecitados, à capitalização da desgrácia de muitos a favor dos interesses de alguns. Estamos de facto numa época de crise. Cuidado que a irresponsabilidade está em roda livre, a demagogia arregimenta as vítimas, a política do quanto pior melhor está a afirmar-se.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

resistir




Há quem pense que a resistência é sinónimo de passividade, ou mesmo a atitude resultante do não compromisso. É certo que resistir pode ser fincar os pés no chão e recusar a mudança, mas também pode ser o mobilizar das energias e meios disponíveis e necessários para não ser submergido e arrastado  pela onda que avança ameaçadora. Resistir à sede do poder pode ser manifestação de força, coragem e lucidez. Resistir à oportunidade do enriquecimento fácil pode ser uma atitude nobre e solidária. Resistir a gritar para que todos oiçam e vejam que existimos pode ser uma atitude sábia e prudente. Resistir a querer ter sempre razão pode ser um passo primeiro para uma abertura á procura convergente e mobilizadora. Contudo se quem não resiste não persiste, haverá igualmente que cultivar a atitude da ousadia que seja o conversor das energias e forças potencialmente destrutivas em novas fontes de sucesso. A demagogia alienante e a maledicência sistemática são armas sobejamente aperfeiçoadas e usadas sobretudo quando a sociedade parece encurralada num labirinto em que já se confunde o donde viemos com o para onde pretendemos ir. Ninguém andará o caminho que temos de andar e esta teimosia em querer avançar sempre ás cavalitas de alguém acaba por cansar  e desesperar os sistematicamente sobrecarregados.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

a força da não violência




Neste fim de semana fui sensibilizado para uma velha e nova realidade que é a chamada "força da não violência". Veio-me à memória figuras como Gandhi, Luther King, Nelson Mandela, ou mesmo Desmond Tutu. Gandi com a sua resistência não violenta levou os seus concidadãos a vencer a potência inglesa, Luther King lançou o movimento de libertação dos negros na América, Nelson Mandela e Desmond Tutu venceram o regímen do apartei na África do Sul. Igualmente me ocorre todo o percurso verdadeiramente inovador que tem sido o processo da integração europeia. E que dizer desse movimento iniciado e dinamizado pelo pacífico e inovador galileu Jesus de Nazaré? Quem mais não violento, mas mais forte do que Ele?
Actualmente estamos a assistir um tanto expectantes ao surgir de manifestações consistentes de multidões que se juntam para de forma não violenta se manifestarem contra a violência instituída como sistema. A força dos fracos e dos não violentos instala-se na praça pública e questiona e confunde a força dos fortes. Não sei como e qual o desfecho final, mas o que sei é que a experiência de que a força desarmada pode ser mais forte que a força apoiada nas armas vai ser uma inspiração no futuro e é uma mensagem para os poderes instalados que não pode ser ignorada. É possível uma revolta sem revolução e é possível derrubar o poder instalado sem recurso a armas. Para quem souber ler um novo sinal dos tempos está acontecendo diante dos nossos olhos.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

o sabor e o saber




Não sei bem porquê dei por mim hoje a pensar sobre o sentido do "sabor e do saber". Talvez que esta ginástica mental tenha sido despoletada por me ter sido chamado a atenção para a necessidade da percepção do sentido da vida,  da coerência entre a proposta e a oferta, entre o saber e o viver, entre a verdade e a opacidade. Ser capaz de saborear a vida dá sentido ás pequenas coisas da vida; ser capaz de se deixar encantar pela beleza da flor, pela elegância do pombo que passeia à nossa frente, pelo riso da criança que só sabe confiar, pela luminosidade espelhada no rosto de dois jovens enamorados, pelo ar triunfante do adulto que está tendo sucesso, pelo olhar agradecido do idoso que se sente respeitado, é manifestação de que estamos aprendendo a viver. Contudo sem conhecimento e saber não existe sabor nem gozo que nos leve a deixarmo-nos encantar por nós mesmos e pelos outros e se não nos deixarmos encantar por nós mesmos e pelos outros não iremos além da triste e enfadonha experiência da mediocridade. A ignorância  e a irreflexão não são portas de acesso à felicidade humana e a procura frenética do prazer não deixa espaço para a saborosa experiência da liberdade. Se posso ser feliz saboreando uns frescos carapaus grelhados porque teimo em ser infeliz porque não posso comer uma lagosta preparada por um ilustre chefe de cozinha? Vou saborear os ditos carapaus que além de me estarem acessíveis ainda me recompensam não fazendo subir o ácido úrico. Corro o risco de fazer figura de "pateta alegre", mas mesmo assim é preferível a ser "pateta triste". Crescer em saber é apurar o gosto por viver e saborear a vida é progredir na descoberta do ser e do sentido de cada realidade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

a festa dos loucos




Não é fácil deixarmo-nos seduzir por aquilo que é mais importante e normalmente deixamo-nos entreter pelo anedótico, pelo secundário e pelo superficial. É o nosso instinto de defesa a ditar as suas leis e assim enquanto andamos atarefados, mesmo que seja com inutilidades, não temos tempo para ir um pouco mais além e descobrir o significado dos gestos, das palavras, das atitudes e das intervenções.
 
O mês que agora chega ao seu termo ficou marcado pela eleição do Presidente da República a quem, a todos os títulos, devo saudar, pois é a manifestação maioritária da vontade do Povo Português ao qual me orgulho de pertencer. O processo que antecedeu  e envolveu a eleição não foi para mim nem o mais sério , nem o mais responsável, nem o mais esclarecedor, nem o mais edificante, nem o mais motivador. Apesar de tudo parabéns ao Povo Português que mais uma vez foi digno de si mesmo.


 Hoje apercebi-me de um convite aberto que aqui partilho com quem esteja disponível para o receber: um convite para a festa dos loucos. É justo que os loucos também tenham direito a participar na festa da vida e não sejam sempre tratados como os coitadinhos e os vencidos. Todos os que se assumem nas suas limitações estão convidados; todos os que não têm vergonha da sua pobreza estão convidados; todos os que são catalogados de humildes estão convidados; todos os que têm fome e sede de justiça estão convidados; todos os que são capazes de ser misericordiosos e de perdoar estão convidados; todos os que não adulteram a verdade estão convidados; todos os que são vítimas da mentira e da injustiça estão convidados; todos os que são explorados e oprimidos estão convidados; todos os que têm a coragem de não se servir dos outros mas de servir os outros estão convidados, todos os que promovem a paz alicerçada na justiça estão convidados. Todos estes, que são tidos como loucos e deslocados estão convidados a participar na festa da vida e este convite foi feito por Jesus de Nazaré há cerca de dois milénios quando proclamou o Evangelho das Bem-Aventuranças e continua ecoando no tempo presente rumo ao futuro. Se por acaso não ouvimos é porque os nossos ouvidos estão demasiado obstruídos pelos resíduos deixados pela mentira, pela opressão, pelo poder, pela posse, pela injustiça, pela demagogia maquiavélica ou pela manipulação promovida a ciência. A festa dos loucos já começou, está acontecendo e vai prolongar-se enquanto houver loucos para festejar.

domingo, 19 de dezembro de 2010

o sonho





É comum dizer e ouvir dizer "que o sonho comanda a vida". Quando já não sonhamos é sinal que estamos num estado em que a vida não tem encanto, nem sabor, nem dinâmica mobilizadora. Encontrarmo-nos numa situação em que já não somos capazes de sonhar é sinal de desistência e de resignação com a triste e vil condição imposta pelo que julgamos ser uma fatalidade deprimente. Ter um grande sonho é lançar mais uma vez a semente à terra, é lançar mais uma vez as redes ao mar, é resistir perante a adversidade, é construir a partir do quase nada, é deixar o muro das lamentações e construir a nova cidade, é ser capaz de acordar e passar à lucidez do compromisso com o diferente. Sabemos que um sonho é proposta quando nos leva a fazer algo de novo que leve à superação do estado de modorra em que muitas vezes vivemos.
Hoje invoco a figura de José, carpinteiro de Nazaré e pai de Jesus. O aceitar o surpreendente desafio do sonho, o arriscar no não visível nem comum, o construir sobre o diferente, o aceitar o risco de se enganar, o acreditar no imprevisto, tornou-O num dos protagonistas discretos mas centrais do grande acontecimento que directa ou indirectamente centralizou a história humana em geral, apontou sentidos e significados novos à existência humana e fermentou o que de melhor a nossa civilização produziu. Para José, esposo de Maria de Nazaré, vai hoje a minha homenagem tão discreta e humilde quanto Ele. O Natal está á porta. Aguardo com encanto, simplicidade e com um misto de sonho e poesia a grande celebração do novo, do diferente e do transcendente, capaz de dar sentido ás coisas velhas e fazer novas todas as realidades. BOM NATAL.

domingo, 12 de dezembro de 2010

confiança





Acabo de chegar dum concerto de Natal em que actuaram cinco dos coros referenciados na freguesia do Lumiar. Já tinha saudades de ouvir canto polifónico, pelo que se juntou a poesia e a surpresa que é sempre a vivência do espírito de Natal á satisfação de poder saborear a harmonia. Enquanto absorvia a harmonia da melodia e acolhia a mensagem das palavras fiquei sensível á dimensão da confiança. Se Deus confiou na humanidade ao ponto de se fazer criança na confiante dependência de José e de Maria, como pode qualquer humano atento não confiar na discreta solicitude do nosso Deus? É certo que uns se dizem ateus, outros agnósticos, outros crentes, outros cristãos, outros cristãos católicos, mas duma forma ou de outra todos somos portadores dessa semente da esperança que nos leva a experienciar este sentimento: "apesar de tudo confio". Esta mensagem de esperançosa confiança ecoa a partir de algumas palavras proclamadas desde tempos longínquos, sempre que a situação individual e ou colectiva apresentou contornos de ausência de soluções para situações desesperantes: "tornai fortes as mãos fatigadas e robustos os joelhos vacilantes, não vos assusteis"(Isaías, profeta).Com alguma imaginação, alguma abertura ao futuro, uma boa dose de reflexão sobre o real e de convergência transformadora, o meu povo ultrapassará as dificuldades dos tempos presentes e aprenderá a construir na alegria um futuro que a todos honre e a todos traga "gozo e contentamento". O Natal está a chegar , é preciso mudar de rumo e ouvir a mensagem profética que nos vai chegando, mesmo quando nos parece chegar donde não estávamos de todo à espera.

domingo, 5 de dezembro de 2010

aparências



Desde cedo constatei que as aparências são uma face sem a qual não existe a moeda. Não chega ser é necessário parecer. E tanta  ênfase demos ao "parecer" que a pouco e pouco o "ser" foi sendo sempre mais relativizado. Assim chegámos à dimensão de que se "parece" é porque "é". Se aparenta ser rico é porque é rico, se aparenta ser justo é porque é justo, se aparenta ser honesto é porque é honesto, se aparenta ser saudável é porque tem saúde, se aparenta ser verdadeiro é porque não é mentiroso. E neste baile de máscaras participamos não apenas como indivíduos, mas também como colectividade. Como sociedade procuramos viver com padrões de abundância e daí concluímos que somos uma sociedade rica. Na política ouvimos à saciedade afirmar que em política o que parece é. Na comunicação social constatamos que uma mentira persistentemente afirmada é mais eficiente que a correspondente verdade discretamente afirmada. Assim vamos vivendo a vida gerindo as aparências, organizando a sociedade na base da alienação, vivendo a política como uma escola da arte da simulação. Romper com esta lógica, quer por convicções pessoais ou por imposição da realidade, gera normalmente desânimo, desilusão e frustração. É preferível viver enganado do que ter de enfrentar a realidade. Mesmo quando proclamamos que "por dentro das coisas é que as coisas são", ou que as aparências iludem, ou ainda que a verdade é libertadora, o facto é que vivemos bem com a superficialidade, cultivamos as aparências, e vamos suportando a doce tirania do inútil, do supérfluo e da comédia pessoal, relacional e social.

Neste fim de semana foi invocada a figura de João Baptista que apela á mudança de comportamentos, à procura da verdade e à primazia do "ser" sobre o "parecer". Este desafio já vem de longe e interpela-nos mais uma vez e de várias formas neste Natal de 2010 que se aproxima. Mudar de rumo é urgente.

domingo, 28 de novembro de 2010

renovar


Se ficarmos à espera que algo de extraordinário aconteça na nossa vida para nos sentirmos realizados o mais provável é fazermos parte da imensidão de frustrados, ou porque a nossa vivência não vai além das coisas comuns que se sucedem sem já qualquer novidade nem encanto, ou porque ficamos sentados á espera da grande oportunidade que tarda e raramente chega. Então o desencanto instala-se, a frescura seca e a alegria  transforma-se num forçado sorriso amarelo. Vem esta reflexão a propósito duma proposta que hoje me entrou como uma luzerna de sol pela janela do meu consciente e que me segredou: " o grande segredo é fazer as coisas comuns de maneira não comum e é a vida comum o meio previligiado para cada um de nós fazer a aprendizagem da afirmação de si mesmo". De facto não sendo o comum dos mortais nem santos, nem heróis, só resta perceber que a grandeza do ser humano não está naquilo que faz, mas no sentido que é capaz de dar àquilo que realiza e que raramente se situa acima das chamadas "coisas comuns".
No calendário litúrgico da Comunidade Cristã Católica inicia-se hoje o chamado novo Ano Litúrgico. Sente-se já um ténue cheirinho a Natal já percebido pela azáfama comercial e pelas luzes que por aqui e por ali fazem figas à crise num desafio provocador. Recordo a letra dum cântico que expressou e expressa o sentir dum número significativo e diversificado de meus contemporâneos: "nem só de pão o homem vive, vive da esperança, vive da justiça, vive da verdade, vive de toda a palavra  que lhe vem de Deus". Sem esperança, sem justiça e sem verdade qualquer intervenção individual ou colectiva poderá convocar para a farsa , mas nunca para o sucesso. Há muita terra árida para cultivar, muitos fantasmas a exorcisar, muita verdade a assumir, muita mudança a implementar, muitos caminhos a endireitar. Este é tempo de mudança quer a implementemos quer apenas a suportemos.

domingo, 21 de novembro de 2010

convergência

Hoje é certamente um bom dia para se falar sobre o poder, os poderosos e o exercício do poder. Uns poucos, pois não podem ser muitos, acham que ser poderoso é ser dominador e ser seguido por uma multidão de súbditos, de bajuladores e de oportunistas. Outros concordam que o exercício do poder é incompatível com o respeito pela afronta da fraqueza e da franqueza. E ainda não poucos aceitam que se não se sentir a canga do poder sobre o dorso é muito difícil conviver em respeito mútuo, em dialéctica libertadora e em empenhamento construtivo. Romper esta lógica, alicerçada na milenar experiência humana, é sempre um desafio que chega desde a prespeciva do futuro com a veemência de quem quer fazer de novo todas as coisas, lançar constantemente novas pontes de diálogo e promover uma nova ordem social em que surjam os grandes servidores, pois só eles serão os novos libertadores e os novos construtores da nova paz.
Vem esta reflexão a propósito de dois acontecimentos vividos neste fim de semana:
 O primeiro acontecimento foi a ocorrência das várias cimeiras realizadas em Lisboa: cimeira da NATO, cimeira da NATO com o Afeganistão,Cimeira da NATO com a Rússia e cimeira dos EUA com a UE. Por dois dias o meu pequeno País foi anfitrião de muitas esperanças e assistiu à procura em diálogo de novas respostas para velhos e mal vislumbrados novos problemas. Afirmar a vontade do respeito pela diversidade e pela complementariedade é só por si um acontecimento inestimável. Senti-me orgulhoso por tudo ter corrido sem incidentes, pela reconhecida e louvada organização, pela competência com que foi implementada a segurança de pessoas e de bens e com a aceitação da livre manifestação de opiniões divergentes.
 O segundo acontecimento diz respeito à celebração pela Comunidade Cristã Católica da festa de Cristo Rei. Aprendemos que só os fortes aceitam ser fracos para que os fracos possam erguer-se da sua fraqueza. Aprendemos que se reconhecermos a verdade de nós mesmos podemos ascender a um novo patamar qualitativamente superior. Ouvimos com a insuspeita autoridade do Senhor Jesus a proclamação de que a força do Amor é a única capaz de promover a libertação de cada pessoa e de toda a pessoa. A Ele presto a minha homenagem , manifesto o meu reconhecimento e a Ele adiro como Meu Senhor, como Nosso Senhor e como Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis.

domingo, 31 de outubro de 2010

Os nadas da vida



Muitas vezes, ao longo do já longo e  nem sempre recto caminho da minha existência, oscilei entre o entusiasmo de quem estava convencido que podia contribuir significativamente para melhorar o mundo em que me foi dado viver e a amarga constatação de que as minhas intervenções não passavam afinal de pequenos grãos de areia que se diluíam desinteressantemente na massa descolorida duma qualquer vulgar edificação. Assim foi com algum conforto que num destes dias li uma mensagem da pequena grande Teresa de Calcutá, que acidentalmente entrou pelas janelas do meu olhar, que lhe agradeço e aqui transcrevo na expectativa de que possa encontrar eco em alguém que se arrelia porque a sua vida não passa do anonimato e se esgota na rotina dos desinteressantes quase nadas.
"Dá sempre o teu melhor...E o melhor virá.
Às vezes as pessoas são egoístas, ilógicas e insensatas. Ainda assim...Perdoa-as.
Se és amável as pessoas podem acusar-te de egoísta e interesseiro. Ainda assim...Sê amável.
Se és um vencedor, terás alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Ainda assim...Vence.
Se és honesto e franco, as pessoas podem enganar-te. Ainda assim...Sê honesto e franco.
O que tardaste a construir, alguém pode destrui-lo numa hora. Ainda assim...Constrói.
Se tens paz e és feliz, as pessoas podem sentir inveja. Ainda assim...Sê feliz.
O bem que fizeres hoje pode ser esquecido amanhã. Ainda assim ...faz o bem.
Se dás ao mundo o melhor de ti, isso pode não ser suficiente. Ainda assim...Dá o melhor de ti mesmo.
No final de contas...tudo é e será entre ti e Deus. Nunca foi só entre ti e eles."

domingo, 1 de agosto de 2010

passar palavra




Recebi ocasionalmente esta mensagem dum bom amigo que aqui recolho e re-transmito:
01 de Agosto de 2010

«Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?»
(Lc 12, 14)

"As religiões antigas incluíam textos que falavam da criação do mundo e da origem do mal. Hoje, pensamos que esses textos nem eram resultado de uma revelação, nem de uma indagação cientifica, nem mesmo de um labor filosófico. Eram "mitos", através dos quais a imaginação e o inconsciente colectivo propunham certas maneiras de interpretar o mundo e a condição humana. (O mito não tem actualmente qualquer conotação negativa. Pensa-se mesmo que a reflexão filosófica surge como tentativa de clarificar e dar rigor a essas construções primitivas). Os primeiros capítulos do Livro do Génesis movem-se no ambiente de mitos. Infelizmente, houve uma época em que a Igreja tomou esses textos como narrativas históricas e abriu sucessivas guerras contra a visão cientifica do mundo. Por exemplo, teimando que a Terra ocupava o centro do Universo, ou afirmando que não tinha havido evolução da vida, pois todas as espécies animais e vegetais tinham sido criadas directamente por Deus.
É muito significativo que Jesus não tenha enveredado por este caminho. disse que o Pai é o Senhor do Céu e da Terra, mas nunca perdeu tempo a descrever a criação. Mandou que os seus discípulos lutassem contra o mal, mas nunca perdeu tempo a explicar a origem do mal. Que se saiba, nunca falou de Adão nem de Eva.
Sem deixar de ser Deus, Jesus veio à Terra como homem. E aceitou lealmente a condição humana. Aceitou que a sua inteligência de homem não sabia tudo e que a sua força muscular não levantava um penedo; precisava de comer e de dormir; sabia que tinha de trabalhar para ganhar a vida. Mais importante do que isto: Jesus sabia que é próprio da condição humana lutar por um futuro melhor, e que é preciso contar com as diferentes contribuições: há os que trabalham a terra, os que escavam as minas, os que pescam no mar; há os que têm tarefas de governo e de administração; há os que procuram caminhos novos; ... Jesus cumpriu a sua missão de mensageiro do Pai para nos anunciar a Boa Nova e para nos dar o exemplo do que é "amar até ao fim" (Jo 13, 1).
Mas é também significativo que Jesus não tenha dado nenhum conselho a respeito dos aspectos mais práticos da aventura humana. Não disse como é que se podiam melhorar os barcos e as redes, nem como se podia aumentar o rendimento dos trabalhos agrícolas, não deu sugestões a respeito da economia, da politica, do direito. Se bem entendo, não o fez porque isso seria intervir na História dos homens de maneira paternalista.
Isto ajuda-nos a entender o Evangelho desta missa (Lc 12, 13-21). Do meio da multidão, um homem pede a Jesus que resolva uma questão de partilhas. (Talvez o homem fosse sincero e acreditasse que ninguém melhor do que Jesus podia dizer o que é justo e o que é injusto). Mas Jesus rejeitou o pedido. Suponho que por duas razões. Primeira, porque, coerentemente com aquilo que acabo de expor, não quis substituir-se à justiça dos homens. Fossem aos tribunais! Segunda, porque achava incrível que dois irmãos se zangassem por uma questão de partilhas. Não tinha paciência para os aturar.
Infelizmente, nem sempre a Igreja reagiu assim. Quis dar certezas definitivas a respeito de todas as coisas importantes; e, muitas vezes, não se deu conta de que saía do domínio da sua competência. (Recorde-se o processo de Galileu). E o Senhor castigou-a, permitindo que se enganasse.
A primeira Leitura é tirada do Livro de Cohélet (Cohélet - Eclesiastes 1, 2 - 2, 23). Este livro. é uma reacção contra as pregações palavrosas e as soluções superficiais. Passando ao extremo oposto, Cohélet diz que não há nada seguro na Terra. Entendamos estas palavras como um convite à profundidade e ao rigor."
P.e João Resina Rodrigues (in a Palavra no Tempo II)

domingo, 23 de maio de 2010

a luz




Pelo menos na dimensão de tempo e espaço em que nos movemos é difícil encontrar seres vivos em ambientes totalmente privados de luz. A vida vegetativa e a vida animal reclamam por luz para poder subsistir e evoluir. A ausência de luz não nos permite ver as formas das realidades que nos cercam e a escuridão limita-nos ou impede-nos de ver a realidade das realidades. Quando as realidades estão bem iluminadas estas tornam-se mais facilmente compreensíveis e quando estamos banhados de luz o exterior mais facilmente nos pode conhecer e compreender. A luz natural tem como origem o sol, a luz artificial aponta para uma qualquer fonte energética, a luz do saber alimenta-se do conhecimento reflexivo e a luz do espírito anuncia um Sol não mensurável por qualquer instrumento medidor do tempo, do espaço, da força energética ou da composição da matéria. É impossível definir o que é a "luz do espírito", mas é intuitivo apercebermo-nos da novidade e do surpreendente da sua presença transformadora. Neste fim de semana em que se celebra a festa do Espírito Santo, a festa do Pentecostes, resta-me invocar a "Luz do Espírito"para todas as mentes humanas, especialmente de quantos definem os destinos dos povos, das nações, das igrejas e das religiões. Que o "SOL" que não conhece ocaso projecte a Sua luz transformadora sobre a nossa realidade humana!

domingo, 16 de maio de 2010

acontecimentos marcantes




A semana que ontem terminou não foi certamente menor nem impreciva para o Povo Português na sua globalidade. Dois acontecimentos relevantes nela se destacaram, a saber: a visita do Papa a Portugal, em geral e à Comunidade Cristã Católica, em particular, e o diálogo iniciado entre os presidentes do PS e do PSD. Como português e como católico acho que a visita do Papa nos honrou e foi uma digna e mutuamente dignificante viagem apostólica: o Povo Português acolheu com dignidade, ouviu com atenção e respondeu com respeito e reconhecimento; a Comunidade Cristã Católica rejubilou de alegria, celebrou a sua comum união ao Senhor Jesus e confirmou através da oração comunitária a sua fé e de forma digna e descomplexada louvou a Deus perante "todos os povos, nações e poderes que existem à face da Terra". É bom, saudável e motivador sentir que somos acolhidos, reconhecidos e entusiasmados. Aplauso pois para o Povo Português que, quando congrega esforço, inteligência, vontade e sentimento é capaz de fazer coisas muito bonitas. O Papa veio, esteve connosco e partiu, mas algo de muito estimulante e marcante ficou na história deste Povo e desta Comunidade Cristã vivido neste Maio de 2010.
Ainda uma referência aos encontros ocorridos entre o presidente do PS e o presidente do PSD. Já estava cansado de ouvir falar da necessidade fundamental de convergência de esforços, mas sobressaía sempre a lógica dos interesses partidários sobre a urgência do bem comum. Foi preciso chegar ao limite para se dar início ao diálogo que não é sinónimo de perda, mas de ganho a favor do bem comum. Estes passos honram os intervenientes e são sinal de esperança perante a depressão que se abate sobre as condições de vida de todo o povo, mormente começando pelos mais frágeis, mais desprotegidos e mais condicionados pela falta de esperança.