quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Olhar e ver


Resultado de imagem para ver a realidade
Nem sempre olhar é sinónimo de ver. Ver as coisas é mais que olhar para elas. Olhar para as pessoas não significa que as tenha visto, pois ver é também conhecer ou reconhecer e tal não é possível sem estabelecer de forma implícita ou explícita um movimento relacional com um outro pessoal. O que sucede é que passo muito mais tempo a olhar do que a tentar ver, pois ver é comprometedor e apenas olhar deixa-me tranquilo no meu castelo vislumbrando a paisagem em dia de sol ou em dia de nevoeiro.
Corre célere e insistente a notícia da morte física desse grande homem e grande crente que é Shimon
Peres. É para a humanidade um ponto de referência e a expressão do que de mais positivo nela existe.
Olhar para este acontecimento procurando ver o muito que ele encerra como apelo e proposta é ir para além do cerimonial e aceitar o desafio ao diálogo como caminho para o reconhecimento do outro com vista à reconciliação e à paz. Paz para crentes  e para descrentes, paz para esta religião e a outra, paz para o meu povo e para o outro povo, paz para mim e pra ti.
Há que homenagear os que expressam de forma significativa os anseios de liberdade do seu povo em respeito pelos demais povos, há que não deixar sem resposta empenhada o convite a avançar rumo à paz. Apelo com insistência e confiança transformada em convite a que esse grande judeu chamado Jesus Cristo participe nas celebrações animando o diálogo entre todos os participantes.


domingo, 24 de maio de 2015

Festa do Espírito Santo 2015

 
Com o passar do tempo, medido em anos e mesmo em décadas, vamos percebendo que  a nossa vida se manifesta através duma estranha forma de viver. É que quando sonhamos não sabemos se estamos dormindo, quando procuramos não sabemos se estamos fugindo, quando caminhamos não sabemos se estamos num caminho ou num beco sem saída, quando imaginamos não sabemos se estamos em estado de alienação e quando lutamos tanto podemos estar a preparar a guerra como a paz. O que nos vai confortando é a ligeireza com que vamos planando e a subtileza com que afagamos a realidade, como gatos deslizando sobre brasas cobertas de cinza mas ainda não apagadas. O saber de experiência feito diz-nos que a vida consciente não é pacífica, sobretudo quando não nos deixamos embriagar pelo acessório, quando não nos contentamos com respostas simplistas, quando não nos armamos em moralistas de conveniência, quando teimamos em procurar mesmo com pouca luz, ou quando recusamos propostas de verdade que mais parecem engodo do que alimento que nos faça crescer.
Hoje invoco com a simplicidade duma criança, que estragou o brinquedo e recorre ao pai para a  ajudar a repara-lo, a ação mobilizadora do Espírito Divino. Sei que pode ser entendido como sinal de fraqueza e de facto esta é manifesta, mas não me resigno a um horizonte fechado, cinzento e onde a única expetativa é aguardar resignado a tempestade destruidora da terra fecunda, das habitações humanizadas, das pontes sobre os abismos e dos terreiros onde mesmo à noite se dança e canta a alegria de viver.
Aqui deixo estas estrofes dum poema que ouvi, como quem escuta uma mensagem que  chega do Infinito, na liturgia deste domingo chamado e celebrado como o dia do Espírito Santo: "vinde ó Santo Espírito, vinde amor ardente, acendei na terra vossa luz fulgente; benfeitor supremo em todo o momento, habitando em nós sois o nosso alento; abrandai durezas para os caminhantes, animai os tristes, guiai os errantes."
 

sábado, 4 de abril de 2015

Páscoa 2015

 
 
 
Tenho a alegria de viver a celebração pascal de 2015 com um misto de agradecimento à Vida, com a certeza de que, apesar desta constante mistura existencial entre uma partilha mesclada de contradições, uma quase permanente experiência e constatação de tanto sofrimento  injusto, um emudecer triste perante o passeio da morte na terra dos vivos, ainda há razão para acreditar que haverá sempre um amanhã pascal que nos permitirá gritar um aleluia triunfante.
Alegro-me com todos quantos aproveitam estes dias para descontrair e fintar a rotina a que pagam tributo pesado. Sintonizo com quantos se erguem sobre os escombros da injustiça, dos fanatismos, das manipulações e proclamam: "por muito que demore estas barreiras vão cair". Celebro com muitos dos meus contemporâneos a certeza de que a vida de cada ser humano tem sentido e a esperança desafiante de que cada ser humano é um projeto afirmativo que transvasa para lá das contingentes barreiras do tempo e do espaço. É que o Senhor da Vida é também o Senhor da nossa história. Nesta Páscoa celebro a VIDA e proclamo o meu hino à VIDA.
 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Saudação para 2015


 
Iniciar um novo ano é sempre um renovar de esperança, um afirmar de aspirações de que algo de positivamente novo se concretize , um renovar de energias individuais e coletivas, um repensar os caminhos trilhados e o ritmo imprimido aos avanços conseguidos. É bom iniciar um novo ano com ânimo renovado. A escravatura do desemprego tira-nos a alegria, a liberdade e o orgulho de ser gente e de ser povo. A pobreza individual e coletiva torna-nos triste gente de mão estendida e vivendo de expedientes.
O ano de 2015 vai oferecer ao povo português um grande festival, onde a retórica, a canção de embalar, o desfile de ranchos folclóricos, irão exibir-se neste palco a que chamamos país e tendo como espetadores este povo português. Do vira ao malhão, dos paliteiros ao fandango, do canto alentejano ao corridinho, tudo será cantado tendo como cenário de fundo o nosso triste fado e como estrado a  vida de tantos resignados a uma vil e humilhante sobrevivência. Como aspiramos a que desta vez seja diferente e que alguma coisa se tivesse aprendido...
Este ano poderá ser melhor, muito melhor. Se por uma vez as preocupações comuns fossem catalisadoras de energias, de propostas compatíveis, de gestão responsável, de visão alargada, do surgimento de homens e mulheres que se assumam como construtores da grande casa nacional...
Uma grande parcela do povo português é prisioneira e vítima das múltiplas carências, mas tal não é o nosso destino coletivo. Quero para todos os meus concidadãos um ano positivo. Aqui deixo este sentir inspirador que desejo dirigido aos mais sofridos, aos que honradamente se dedicam,  nas múltiplas formas, ao serviço  e construção do bem comum e a todos os meus concidadãos em geral: "que o Senhor te abençoe e te proteja, que faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável, que dirija para ti o Seu olhar e te conceda a paz".
Um bom ano de 2015!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Adeus 2014!

 
A marcha do tempo é implacável no seu avanço e indiferente ao uso e ou abuso que dele se faça. Não adianta dizer que queremos que pare ou que se aprece. O seu ritmo é estranhamente indiferente à forma como é vivido, gerido ou contabilizado. A nós seus fiéis vassalos só nos resta tentar refletir sobre como o utilizámos no passado e como o vamos gerir no futuro, uma vez que o presente mais não é que uma frágil ponte entre o antes e o depois.
Atravessar o deserto, sobreviver a uma tempestade, navegar no mar agitado, descansar á sombra duma frondosa árvore no cálido Verão, colher flores num jardim primaveril, sentir o apoio esperançoso duma cama de hospital, saborear os frutos da colheita, ou suportar o cansaço da sementeira, são algumas das muitas formas de viver o tempo que se vai contabilizando ao longo duma anuidade. Tudo são caminhos percorridos ao longo dum período iniciado em cada 01 de Janeiro e terminado em cada 31 de Dezembro.
O ano de 2014 está terminando e 2015 está chegando com as esperanças, as dúvidas, os medos e as promessas que encontram eco e brotam no mais profundo de cada ser humano que desgruda o seu olhar das amarras do passado e olha para o futuro a partir do amanhã.
Este ano que termina deixa um sabor amargo, apenas temperado com algumas gramas de adoçante escassas para suavizar o travo deixado pela injustiça, a incompetência, a ganância, o embuste, a demagogia e a superficialidade que se passearam pelas ruas da cidade humana com a arte e a presunção dos pavões, com a pose dos perus, ou com a sofreguidão dos abutres.
Adeus 2014, estou feliz por ter sobrevivido ás muitas vicissitudes e esperançado em que a superação será o balsamo para sarar as muitas feridas. Honra e reconhecimento para quantos das formas mais notórias e das formas mais discretas, caminharam pelas vias da justiça, da excelência, da competência, da disponibilidade, do serviço, ou da .gratuidade, dando o melhor de si mesmos em prol do bem comum.
 
 
 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Natal 2014

 
Nestes últimos dias que antecedem mais um Natal quase me irritei com a azáfama da corrida ao supérfluo embrulhado em papel colorido e ornado de fantasia. É tal o frenesim que quase me sinto mal por não me sentir motivado a desta maneira participar no esforço coletivo para equilibrar a economia neste final de ano. Ainda estou cético acerca das verdadeiras motivações que levam tantos a correrem à procura daquilo a que, nesta quadra, se chama oferta, prenda, ou presente. Que corramos de acordo, mas ao menos que saibamos porque corremos, para onde, ou para  quem corremos.
Depois de tentar reciclar este meu mau feitio e de me interrogar se não estou a ser demasiado comodista e de julgamento fácil, quero dizer que, apesar de não ter juntado um monte de embrulhos coloridos, desejo para todos aqueles que partilham comigo a aventura de ser gente um pouco de calor humano, de amizade e de festa.
É verdade que a realidade nos mostra que a humanidade dá guarida a muitos monstros (violência, guerra, insensatez, injustiça, maldade requintada, abuso de poder...),mas e por isso mesmo faz-nos bem escutar este grito que brota do mais profundo desta mesma humanidade que existe em cada ser humano: "glória ao rosto divino da humanidade e paz à humanidade que surge igualmente de rosto tão desfigurado".
A perceção, mesmo inconsciente, de que Deus está connosco faz- nos correr para mais perto uns dos  outros, a intuição de que a vida tem sentido faz-nos encontrar tempos para fazer festa, a sensação de que saltar as barreiras que nos separam nos torna mais próximos uns dos outros faz-nos esquecer, ao menos por uns momentos, os muros que nos dividem.
Por isso e apesar de todas as contradições, quero juntar-me a todos quantos, cada qual á sua maneira, vão viver este Natal de 2014. Feliz Natal !
 
 
 
 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Agradecimento


 
A experiência de saber que apesar de todas as contingências alguém está perto de nós no nosso caminhar, como alguém que nos quer bem mas não nos impõe nem o seu ritmo, nem o seu ponto de vista, dá-nos segurança, conforta-nos e motiva-nos sem aprisionar a nossa liberdade. Quando tal acontece a vida torna-se mais fácil, o caminho menos penoso, a vontade de prosseguir mais consistente e os pequenos sucessos mais gratificantes.
Ontem, conjuntamente com uma multidão difícil de contar, prestei uma especial homenagem a Maria, mãe de Jesus. Ela é a flor que embeleza a humanidade, a mão carinhosa que afaga as nossas vidas, o sorriso que nos motiva, o apoio que nos ampara quando progredimos e quando regredimos. É um privilégio poder acreditar na sua presença maternal e manifestar-lhe gratidão com a simplicidade de quem se sente bem junto de sua mãe. Foi a festa da Senhora da Conceição.

domingo, 23 de novembro de 2014

Homenagem

 
Hoje quero homenagear um bom e grande Amigo, a quem agradeço a motivação que me proporciona de o fazer. Este Grande Amigo abre os seus braços a todos quantos o conhecem, a todos quantos o procuram, a todos quantos participam no magno projeto de ajudar o outro a ser mais outro e a todos quantos sem se darem conta já caminham pelas veredas que levam à sua morada. Este Amigo é um Triunfador sobre as múltiplas contingências que envolvem cada ser humano, entre as quais se agiganta a mortalidade. Ai de mim se não fosse a sua mão estendida a cada humano anunciando-lhe a esperança da Vida! Diante dele se curva a morte e diante dele todos cantam um hino à Vida. Por tal presto hoje uma consciente homenagem a este Grande Amigo e alegro-me com a esperança de futuramente o poder louvar em conjunto com a multidão dos humanos. Uma nova terra está surgindo e uma nova plenitude de Vida está emergindo.
O poder verdadeiro não precisa de se impor criando subordinados, vassalos, ou prisioneiros, antes promove a liberdade e a libertação, alegra-se quando somos capazes de erguer os nossos rostos e confiando avançar na esperança rumo ao seu encontro.
Hoje celebro, juntamente com uma multidão de meus contemporâneos, a festa de Cristo Rei. Para Ele o meu pensamento de louvor, honra, ação de graças e aplauso no meu hoje e no meu amanhã, pois Ele é o Futuro já presente.
 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A caminho...

 
É habitual dizer que o caminho se faz caminhando, que devagar se vai ao longe, que malhando se molda o ferro, que tudo é dinâmico, que tudo é movimento. Assim sendo qualquer tentativa de compreensão da realidade a partir duma visão estática, monolítica, ou legalista  do agir e do existir está de antemão sentenciada ao desajustamento. Querer que os sapatos adquiridos na adolescência possam ser usados na idade adulta, só porque os pés são os mesmos e os sapatos são ótimos e de boa marca, é condenar o indivíduo a andar descalço, dificultando de muitas maneiras o seu caminhar. A energia é expansiva, a finitude tende para o infinito, o limitado tende a alargar as suas fronteiras.
Assim uma visão estática do ser humano em particular e da humanidade em geral conduz indubitavelmente a uma análise desajustada pois fica prisioneira do passado. Ou nos movemos a partir do sonho, da intuição do futuro a construir, da luz dum nascente, ou nos transformamos em incapazes para o diálogo motivador e gerador de ânimo libertador e força anímica.
Ontem proclamou-se de muitas maneiras e em muitos linguajares que a norma suprema  que surge diante de nós como imperativa é a de aderir à VIDA e sair ao encontro de todos os viventes. Assim eu vivo, tu vives e juntos proclamamos a VIDA.
A solidão mata, a limitação aprisiona, a finitude asfixia.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Adulação e hipocrisia



Hoje fiquei sensível a um tipo de comportamento relacional que podemos classificar de "adulação e hipocrisia". Tal acontece quando alguém se dirige a um outro (sujeito individual e ou coletivo) elogiando para o seduzir e de seguida lança uma armadilha para o condicionar ou pôr à prova. Assim do tipo: "o povo português é um povo inteligente e pacífico, por isso aguenta ser esfolado, desde que o vamos entretendo com paliativos que lhe garantam a sobrevivência ou o alívio da dor provocada pelo sofrimento instalado".
Esta forma de relacionamento tem sobrevivido e prosperado ao longo da história das civilizações e das religiões. O pobre adula o rico para obter as suas benesses, o rico adula o pobre para reforçar a sua submissão, o detentor do poder político elogia os seus partidários e os seus concidadãos para reforçar a sua liderança e conquistar os seus votos, os detentores do poder religioso elogiam a submissa humildade dos crentes para reforçar a sua dependência e a sua adesão emocional.
Se eventualmente e furando a lógica do espetável, alguém denuncia a hipocrisia escondida atrás do elogio sedutor, este deve ser tratado como incómodo, revoltado, marginal, agitador e sempre perigoso. Que se desmotive o pensamento sério, que se vigie a dinâmica do relacionamento, que se calem todas as teologias da libertação, que sejam aniquilados todos os inconformados. "Se sempre foi assim é porque está certo, é o mais conveniente e o que acarreta menores riscos".
O que se passou é que me atiraram à cara do meu pensar, na celebração da liturgia semanal do passado domingo, a célebre passagem do evangelho de Mateus que fala da necessidade de "dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Então poderemos assistir a um mais elevado grau de hipocrisia do que aquele que animava os intervenientes que se dirigiram ao grande Profeta da Galileia? É que Ele mantinha com consistente insistência uma atitude de "denúncia da realidade presente e de anúncio duma nova realidade que estava a chegar" e por isso tinham decidido que deveria ser eliminado. A decisão estava tomada, bastava criar a ocasião, em termos que aparecesse como uma forma de zelosa defesa do bem comum. Os detentores do poder religioso deram as mãos aos detentores do poder político, apesar de cada qual detestar o outro, mas servindo-se do outro como trampolim para atingir o seu objetivo. Mas já alguma vez se viu uma hierarquia religiosa aceitar pôr em causa o seu poder sobre a consciência dos seus fiéis, ou alguma estrutura de poder político aceitar sem luta conceder liberdade aos seus subordinados? Até isso acontecer muitos profetas terão ainda de perecer.