terça-feira, 1 de março de 2011

enrascadela



Num país enrascado quem é que fica respaldado a não ser as aves de rapina e os enrascadores de profissão? As crianças estão a ser enrascadas, pois com tanta artificialidade mais parecem aves de capoeira do que andorinhas em início de Primavera. Os jovens sentem-se enrascados pois prometeram-lhes o sol e só vêm a lua nova. Os adultos estão enrascados pois sonharam com a abundância e deparam-se cada vez mais com a carestia. Os idosos estão super enrascados pois pensavam que tinham construído uma sociedade consistente e sai-lhes uma sociedade gelatinosa. Como sair deste embróglio sem gastar as poucas energias restantes destruindo o que ainda resta ? Pode cada grupo cuspir a sua raiva para cima dos demais, mas enquanto não passarmos da ânsia do usufruir para o esforço de construir apenas ficaremos todos cada vez mais atolados em  lixo tóxico. Os portugueses que tiveram a coragem de se aventurarem no diferente sempre conseguiram afirmar-se e transformar o enrascanso em desenrascanso, mas sempre recorrendo ao sobre esforço, ao acumular de energias, ao confronto com o diferente e ao sair para fora do seu quintal. Já que não tivemos a capacidade de ser bons gestores e a inteligência para prever e evitar o desastre sejamos ao menos bons imaginativos na gestão da insolvência. É o que se chama "fazer das tripas coração".

domingo, 27 de fevereiro de 2011

resistir




Há quem pense que a resistência é sinónimo de passividade, ou mesmo a atitude resultante do não compromisso. É certo que resistir pode ser fincar os pés no chão e recusar a mudança, mas também pode ser o mobilizar das energias e meios disponíveis e necessários para não ser submergido e arrastado  pela onda que avança ameaçadora. Resistir à sede do poder pode ser manifestação de força, coragem e lucidez. Resistir à oportunidade do enriquecimento fácil pode ser uma atitude nobre e solidária. Resistir a gritar para que todos oiçam e vejam que existimos pode ser uma atitude sábia e prudente. Resistir a querer ter sempre razão pode ser um passo primeiro para uma abertura á procura convergente e mobilizadora. Contudo se quem não resiste não persiste, haverá igualmente que cultivar a atitude da ousadia que seja o conversor das energias e forças potencialmente destrutivas em novas fontes de sucesso. A demagogia alienante e a maledicência sistemática são armas sobejamente aperfeiçoadas e usadas sobretudo quando a sociedade parece encurralada num labirinto em que já se confunde o donde viemos com o para onde pretendemos ir. Ninguém andará o caminho que temos de andar e esta teimosia em querer avançar sempre ás cavalitas de alguém acaba por cansar  e desesperar os sistematicamente sobrecarregados.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

a força da não violência




Neste fim de semana fui sensibilizado para uma velha e nova realidade que é a chamada "força da não violência". Veio-me à memória figuras como Gandhi, Luther King, Nelson Mandela, ou mesmo Desmond Tutu. Gandi com a sua resistência não violenta levou os seus concidadãos a vencer a potência inglesa, Luther King lançou o movimento de libertação dos negros na América, Nelson Mandela e Desmond Tutu venceram o regímen do apartei na África do Sul. Igualmente me ocorre todo o percurso verdadeiramente inovador que tem sido o processo da integração europeia. E que dizer desse movimento iniciado e dinamizado pelo pacífico e inovador galileu Jesus de Nazaré? Quem mais não violento, mas mais forte do que Ele?
Actualmente estamos a assistir um tanto expectantes ao surgir de manifestações consistentes de multidões que se juntam para de forma não violenta se manifestarem contra a violência instituída como sistema. A força dos fracos e dos não violentos instala-se na praça pública e questiona e confunde a força dos fortes. Não sei como e qual o desfecho final, mas o que sei é que a experiência de que a força desarmada pode ser mais forte que a força apoiada nas armas vai ser uma inspiração no futuro e é uma mensagem para os poderes instalados que não pode ser ignorada. É possível uma revolta sem revolução e é possível derrubar o poder instalado sem recurso a armas. Para quem souber ler um novo sinal dos tempos está acontecendo diante dos nossos olhos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

positivo

Assisti ontem ao programa "Prós e Contras" da RTP e sinto meu dever manifestar o meu aplauso não só à competente jornalista Fátima Campos Ferreira, mas também e sobretudo, a todos os intervenientes que foram a expressão da raça dum povo que não se resigna perante as dificuldades e sai do seu buraco para ir à conquista do seu espaço numa globalidade onde os limites são as fronteiras da competência, do conhecimento, da qualidade e do diferente. Já andámos demasiado tempo a carpir mágoas, a mendigar á porta dos mais abastados, a comer fiado, a brincar ao "toca e foge" e ao jogo da "cabra cega". Aguardamos activamente que surja uma nova mentalidade que nos leve a romper com o complexo de pequenês e nos permita navegar pelos mares da competência, e dos horizontes rasgados. Podemos ser um pequeno grande povo que se orgulha do seu passado, paga as custas dos seus desvarios do presente e constrói com afinco o seu futuro. Programas como o "Prós e Contras" são dignos de aplauso e valorizam quem os faz e quem os ouve. Parabéns!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

o sabor e o saber




Não sei bem porquê dei por mim hoje a pensar sobre o sentido do "sabor e do saber". Talvez que esta ginástica mental tenha sido despoletada por me ter sido chamado a atenção para a necessidade da percepção do sentido da vida,  da coerência entre a proposta e a oferta, entre o saber e o viver, entre a verdade e a opacidade. Ser capaz de saborear a vida dá sentido ás pequenas coisas da vida; ser capaz de se deixar encantar pela beleza da flor, pela elegância do pombo que passeia à nossa frente, pelo riso da criança que só sabe confiar, pela luminosidade espelhada no rosto de dois jovens enamorados, pelo ar triunfante do adulto que está tendo sucesso, pelo olhar agradecido do idoso que se sente respeitado, é manifestação de que estamos aprendendo a viver. Contudo sem conhecimento e saber não existe sabor nem gozo que nos leve a deixarmo-nos encantar por nós mesmos e pelos outros e se não nos deixarmos encantar por nós mesmos e pelos outros não iremos além da triste e enfadonha experiência da mediocridade. A ignorância  e a irreflexão não são portas de acesso à felicidade humana e a procura frenética do prazer não deixa espaço para a saborosa experiência da liberdade. Se posso ser feliz saboreando uns frescos carapaus grelhados porque teimo em ser infeliz porque não posso comer uma lagosta preparada por um ilustre chefe de cozinha? Vou saborear os ditos carapaus que além de me estarem acessíveis ainda me recompensam não fazendo subir o ácido úrico. Corro o risco de fazer figura de "pateta alegre", mas mesmo assim é preferível a ser "pateta triste". Crescer em saber é apurar o gosto por viver e saborear a vida é progredir na descoberta do ser e do sentido de cada realidade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

a festa dos loucos




Não é fácil deixarmo-nos seduzir por aquilo que é mais importante e normalmente deixamo-nos entreter pelo anedótico, pelo secundário e pelo superficial. É o nosso instinto de defesa a ditar as suas leis e assim enquanto andamos atarefados, mesmo que seja com inutilidades, não temos tempo para ir um pouco mais além e descobrir o significado dos gestos, das palavras, das atitudes e das intervenções.
 
O mês que agora chega ao seu termo ficou marcado pela eleição do Presidente da República a quem, a todos os títulos, devo saudar, pois é a manifestação maioritária da vontade do Povo Português ao qual me orgulho de pertencer. O processo que antecedeu  e envolveu a eleição não foi para mim nem o mais sério , nem o mais responsável, nem o mais esclarecedor, nem o mais edificante, nem o mais motivador. Apesar de tudo parabéns ao Povo Português que mais uma vez foi digno de si mesmo.


 Hoje apercebi-me de um convite aberto que aqui partilho com quem esteja disponível para o receber: um convite para a festa dos loucos. É justo que os loucos também tenham direito a participar na festa da vida e não sejam sempre tratados como os coitadinhos e os vencidos. Todos os que se assumem nas suas limitações estão convidados; todos os que não têm vergonha da sua pobreza estão convidados; todos os que são catalogados de humildes estão convidados; todos os que têm fome e sede de justiça estão convidados; todos os que são capazes de ser misericordiosos e de perdoar estão convidados; todos os que não adulteram a verdade estão convidados; todos os que são vítimas da mentira e da injustiça estão convidados; todos os que são explorados e oprimidos estão convidados; todos os que têm a coragem de não se servir dos outros mas de servir os outros estão convidados, todos os que promovem a paz alicerçada na justiça estão convidados. Todos estes, que são tidos como loucos e deslocados estão convidados a participar na festa da vida e este convite foi feito por Jesus de Nazaré há cerca de dois milénios quando proclamou o Evangelho das Bem-Aventuranças e continua ecoando no tempo presente rumo ao futuro. Se por acaso não ouvimos é porque os nossos ouvidos estão demasiado obstruídos pelos resíduos deixados pela mentira, pela opressão, pelo poder, pela posse, pela injustiça, pela demagogia maquiavélica ou pela manipulação promovida a ciência. A festa dos loucos já começou, está acontecendo e vai prolongar-se enquanto houver loucos para festejar.

sábado, 22 de janeiro de 2011

pausa



Neste sábado, a que se convencionou chamar dia de reflexão em véspera de eleições, aqui deixo algumas respostas de Tales de Mileto, sábio da antiga Grécia que pisou a sua terra entre 640 e 550 a. c., a outras tantas perguntas que lhe foram feitas por um seu contemporâneo que praticava a arte do sofisma:
Qual é a coisa mais antiga? - Deus, porque sempre existiu.
Qual é a coisa mais bela? - O mundo, por ser obra de Deus.
Qual é a coisa maior? - O espaço, por conter toda a criação.
Qual é a coisa mais constante? - A esperança que permanece, mesmo quando tudo está perdido.
Qual é a coisa melhor? - A virtude, porque sem ela nada é bom.
Qual é a coisa mais sábia? - O tempo que tudo ensina.
Qual é a coisa mais forte? - A necessidade, que tudo vence.
Qual é a coisa mais fácil? - Nada mais fácil que dar conselhos.
Qual é a coisa mais difícil? - Conhecer-se a si mesmo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

engodo





Desde longe vem a arte de muito falar quando se tem pouco para dizer. A escacês de ideias abre espaço á abundância de palavras. A pouca razão convive bem com a irracionalidade. A superficialidade dificilmente aceita a reflexão séria. A verborreia não coabita pacificamente com o diálogo. O poder tem vertigens á hipótese de ceder a sua cadeira. Mudar é difícil e normalmente só acontece com empurrões, venham eles donde vierem. A demagogia abunda na inversa da assunção da responsabilidade. A alienação é o estado resultante da irracionalidade sabiamente cultivada e distribuída. As eleições presidenciais serão finalmente no próximo dia 23. Por muito que os habituais comentadores políticos se tenham espremido e esgrimido argumentos e contra-argumentos pouco ou nada se avançou em clarividência e é com alívio que nos aproximamos do termo desta campanha.

domingo, 16 de janeiro de 2011

fim de festa




Terminaram as festas do Natal e do Fim de Ano, comemos as filhós, lançámos os foguetes, dançámos o vira, o fandango e o malhão e fomos à gaveta ver se os euros restantes ainda chegavam até ao fim do mês. Como o saldo era negativo face á previsão dos encargos assumidos, fomos aflitos e com algum ar de pobre envergonhado pedir aos vizinhos que nos emprestassem o que nos falta. Os vizinhos disseram - nos que desta vez ainda emprestavam, mas exigiram-nos juros gravosos e disseram- nos que fizéssemos bem as contas pois viver do fiado acaba por mais cedo que tarde em dar mau resultado e a termos de empenhar os poucos haveres que ainda nos restam. Lá regressámos a casa com o ar de estranho alívio de quem empenhara mais uns anéis e a magicar como é que vamos conseguir viver apenas com o que conseguimos angariar. Será que vamos conseguir? Uns inteligentes dizem que sim, outros igualmente entendidos dizem que não, outros inspirados dizem que talvez, mas ninguém parece estar disponível para reduzir a sua mesada: uns porque não podem, outros porque os seus direitos são inalienáveis, outros porque ameaçam sair da família, outros acham que não é justo ter de aceitar as condições de quem empresta. Assim nos vamos adaptando à persistente contingência resultante do facto de termos uma cama bastante maior que a manta: uns ficam com os pés de fora , outros mais encolhidos, outros recebem uns quantos arranhões dos que não querem cortar as unhas, uns quantos se constipam e mais uns tantos acabam mesmo por ficar vítimas dessa peste chamada pobreza. Em casa onde escasseia o pão todos protestam com ou sem razão, mormente quando o pão é estranhamente mal repartido. Resta-nos a expectativa de que um anunciado novo maestro venha ao menos sugerir alguma harmonia em tanta cacofonia.

sábado, 1 de janeiro de 2011

mãos abertas





Na tarde deste 1º dia de 2011 e enquanto oiço o concerto executado pela orquestra filarmónica de Viena, transmitido pela RTP, lembrei-me de retransmitir e partilhar os votos que hoje me chegaram, passados de mão em mão e voando nas asas do intemporal: "o Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e te seja favorável. O Senhor dirija para ti o Seu olhar e te conceda a paz". Que melhores votos eu poderia receber e que de melhor poderei desejar a quem ler este blogue, aos meus amigos, familiares, concidadãos  e a todos os humanos em geral, neste 1º dia de 2011? Já que sou pequeno no ser e no dar que ao menos seja grande no desejar. Feliz ano de 2011.