domingo, 16 de maio de 2010

acontecimentos marcantes




A semana que ontem terminou não foi certamente menor nem impreciva para o Povo Português na sua globalidade. Dois acontecimentos relevantes nela se destacaram, a saber: a visita do Papa a Portugal, em geral e à Comunidade Cristã Católica, em particular, e o diálogo iniciado entre os presidentes do PS e do PSD. Como português e como católico acho que a visita do Papa nos honrou e foi uma digna e mutuamente dignificante viagem apostólica: o Povo Português acolheu com dignidade, ouviu com atenção e respondeu com respeito e reconhecimento; a Comunidade Cristã Católica rejubilou de alegria, celebrou a sua comum união ao Senhor Jesus e confirmou através da oração comunitária a sua fé e de forma digna e descomplexada louvou a Deus perante "todos os povos, nações e poderes que existem à face da Terra". É bom, saudável e motivador sentir que somos acolhidos, reconhecidos e entusiasmados. Aplauso pois para o Povo Português que, quando congrega esforço, inteligência, vontade e sentimento é capaz de fazer coisas muito bonitas. O Papa veio, esteve connosco e partiu, mas algo de muito estimulante e marcante ficou na história deste Povo e desta Comunidade Cristã vivido neste Maio de 2010.
Ainda uma referência aos encontros ocorridos entre o presidente do PS e o presidente do PSD. Já estava cansado de ouvir falar da necessidade fundamental de convergência de esforços, mas sobressaía sempre a lógica dos interesses partidários sobre a urgência do bem comum. Foi preciso chegar ao limite para se dar início ao diálogo que não é sinónimo de perda, mas de ganho a favor do bem comum. Estes passos honram os intervenientes e são sinal de esperança perante a depressão que se abate sobre as condições de vida de todo o povo, mormente começando pelos mais frágeis, mais desprotegidos e mais condicionados pela falta de esperança.

domingo, 9 de maio de 2010

transitório e definitivo



Neste fim de semana em que se evoca, através da leitura de parte do capítulo 15º dos Actos dos Apóstolos, o concílio de Jerusalém, o primeiro da comunidade cristã nascente, anuncia-se com ênfase a visita de Bento XVI à Comunidade Cristã Portuguesa e de forma mais alargada a todo o Povo Português. Seja benvindo e acolhido com entusiasmo. A sua presença é mão apontando para Aquele que desde o futuro da humanidade congrega para a construção da "nova cidade", em que a harmonia entre os humanos e destes com o transitório e com o definitivo, seja o nova forma de viver e conviver. O Papa não vem como modelo perfeito de humanidade, nem como fonte de santidade, nem como critério absoluto de verdade. Quer se concorde com ele no todo ou só em parte, no essencial ou também no acessório, no definitivo ou também no transitório, o certo é que acolhê-lo é acolher, de forma implícita ou explícita, Aquele de que a sua existência é anúncio. Assim experienciar a presença física de Bento XVI no meu país é motivo para renovar a minha adesão a Jesus Cristo como o Senhor da História, a Quem presto honra e glória com a vinda do Papa à nossa terra. No concílio de Jerusalém Pedro foi confrontado e contestado e a sua confusão e hesitação face ás novas realidades culturais e sociais foi o ponto de partida para que a Comunidade Cristã, por acção do Espírito Santo, se abrisse à universalidade. As atitudes monolíticas, as teorias de um único pensante, a preocupação de manter a unidade a partir do acessório, do transitório, dos tabús, do silêncio, das excomunhões, podem ser um sedutor e procurado suporte para uma estrutura de poder, mas não são caminho de superação e de descoberta de novas respostas para as sempre surpreendentes realidades humanas.

domingo, 2 de maio de 2010

homenagem à vida


Hoje é dia de adquirir um ramo de flores, reais ou afectivamente imaginadas, para oferecer como gesto de gratidão ao dom da vida e a todas aquelas mulheres que ao longo da história humana assumiram não apenas o seu papel de progenitoras mas sobretudo a missão da maternidade. Uma flor para Eva, a mãe de todos os humanos que teve a ousadia de querer conhecer o "bem e o mal" e a intuição de que os seus descendentes viriam a "ser como deuses" vencendo a barreira da mortalidade. Uma flor para Maria de Nazaré que a partir da consciência da sua limitacão é capaz de acreditar que a Deus "tudo é possível" e assim se tornar na mãe da nova humanidade que, em Cristo, torna efectiva a comunhão entre a dimensão divina e a dimensão humana. Uma terceira flor para Maria, "a mulher do Serafim dos Casais Novos," aquela mulher pobre, analfabeta, batalhadora e rude como as estevas do monte, que me gerou, me embalou e me fez crescer à sombra do seu sonho e impulsionado pela sua força anímica. Esta, como as anteriores, já não faz parte do número dos mortais, mas a sua presença continua a inspirar a minha existência e a manter vivo este sentimento de profunda admiração e ilimitada gratidão.

domingo, 25 de abril de 2010

liturgias


O dia de hoje está sendo abundante em liturgias, quer se trate da liturgia religiosa, quer de liturgias sócio-políticas. A liturgia religiosa evoca a figura de Cristo Ressuscitado e através da imagem do Bom Pastor reconhece-O como Aquele que lidera não através da afirmação do poder e da força, mas através duma efectiva atitude de serviço para com todos, com uma especial atenção aos mais fracos, vulneráveis e menos integrados na Comunidade que O reconhece. Esta imagem do Bom Pastor e da sua relação com a Comunidade aparece plasmada no Capítulo 10º do evangelho de João. Aí se faz o contraponto entre um bom pastor, um mercenário e um ladrão: aquele defende, conhece e promove o bem-estar de todos os membros da Comunidade; estes matam, tosquiam, exploram e abandonam sempre que chega o tempo da dificuldade. O que causa algum embaraço é que apenas é proposto um Bom-Pastor: Cristo. Tal significa que todos quantos se apresentarem ou se deixarem aclamar como pastores têm de ser olhados com reserva pois é certo e sabido que estamos perante mercenários, ladrões, ou lobos, mesmo quando vestidos com suaves peles de cordeiro. Por mim adiro a Jesus Ressuscitado como o único Senhor e não contem comigo para queimar incenso perante qualquer outro poder. Assim canto neste dia o meu hino à liberdade.
Também hoje se comemora o 36º aniversário do 25 de Abril. A principal comemoração ocorreu e bem, na Assembleia da Répública. Foi uma liturgia bem preparada e conseguida, em que, através da linguagem das palavras, dos símbolos, dos gestos, da disposição dos espaços, das mensagens e da evocação do passado, se questionou o presente e procurou conseguir alguma convergência e empenhamento de abertura construtiva ao diferente que vem do futuro. As palavras chave são democracia, liberdade e desenvolvimento. Também aqui a liderança será uma liderança de serviço e tudo o mais será um covil de mercenários, de ladrões e de salteadores, mesmo utilizando as suaves e sedutoras palavras de liberdade, igualdade e fraternidade. Aqui expresso o meu aplauso e o meu apoio a todos quantos na diversidade das suas leituras e dos seus ângulos de análise procuram sem calculismos de ganhos políticos, de poder, ou de ganância investir em serviço do bem comum. Neste dia evoco a experiência única vivida há 36 anos, saúdo os actuais construtores da nova sociedade e sonho com todos quantos não desistiram de questionar o presente desde a prespectiva dum futuro de sucesso para o meu povo. De novo o meu hino à liberdade.

domingo, 11 de abril de 2010

a dúvida

A grande certeza é que as nossas certezas, mesmo aquelas que alicerçam o mais profundo das nossas convicções, se apresentam mescladas de luz e de sombra, de já mas ainda não, de descoberta e de procura, de encontro e desencontro. Viver entre a dúvida metódica e a certeza provisória é a única proposta que surge diante de quem caminha de rosto erguido, mas admitindo sempre que pode cair ou magoar-se nas pedras do caminho mais ou menos acidentado, mas nunca totalmente plano. As nossas pequenas certezas para terem alguma consistência têm de passar pelo crivo da experiência. Quem não vive não tem certezas de vida e quem não viu não pode ser testemunha credível do acontecimento. Hoje evoca-se a figura de S. Tomé, essa personagem que perante a certeza de todos teve a coragem de afirmar: "se não vir não acreditarei" e daí herdámos a expressão de "preciso de ver para crer".
A Assembleia da Répública aprovou o Orçamento de Estado para 2010 e disseram-nos que era um orçamento justo, responsável e de recuperação. Quero ver para crer.
Foi aprovado o PEC e disseram-nos que em 2013 a nossa economia estará mais robusta e as finanças públicas estarão equilibradas. Quero ver para crer.
Este fim de semana realizou-se o Congresso do PSD-PPD e afirma-se que vai dar-se início a um novo ciclo carecterizado pela responsabilidade política. Quero ver para crer.
Diz-se que os novos submarinos servem para andar na água e não para meter água. Quero ver para crer.
Afirma-se que a Justiça vai, por acção eficiente das múltiplas "comissões de inquérito", deixar de ser essa manta velha cheia de buracos. Quero ver para crer.
Defende-se que os arábicos salários de muitos gestores de empresas públicas, semi-públicas, e privadas são justos porque são legais. Não vejo nem consigo acreditar.

domingo, 4 de abril de 2010

nova fronteira




O dia que mais marcou a História Humana foi certamente aquele em que o ser humano se deu conta de que por mais que tentasse dominar a vida não era, nem é, o senhor da Vida. Pode destruir os viventes, mas não destrói a Vida. O Senhor da Vida respeita as, por vezes, irracionais e absurdas atitudes dos pequenos deuses, mas surge sempre como o Sol Nascente que se ergue iluminando e aquecendo as trevas geladas de muitos dos recantos da existência de cada humano. Hoje é dia de Páscoa. De forma mais consciente ou apenas intuitiva todos celebramos a Vida. Ninguém presenciou, nem podia presenciar, a ressurreição do Senhor da Vida a quem os humanos impuseram a experiência da morte, mas a certeza de que Cristo havia ressuscitado abriu a esperança de que os mortais, porque co-participantes como Cristo na vida humana, também seriam co-participantes na Sua Vida de Ressuscitado. As fronteiras do tempo, do espaço, da evolução, da degeneração, da transformação dolorosa, abrem-se para uma nova dimensão existencial e a porta de acesso é Jesus e Jesus Ressuscitado. Aderir a Ele é aderir a uma perspectiva de existência humana que transborda para lá dos limites da corporeidade, da física, da matemática e da história. Neste dia de magna celebração festiva brindo à Ressurreição de Cristo e ao futuro glorioso de todo e de cada ser humano que a Ele aderir, reconhecer e com Ele se abrir à nova dimensão da existência humana.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

absurdo


Esta semana é apelidada tradicionalmente de "semana maior". Esta designação deve-se não ao facto de ter mais dias de trabalho e em que portanto se produz mais, mas porque relembra o maior absurdo da História Humana. Em que se concretiza este absurdo? Precisamente nisto: aqueles que acreditam em Deus decidem em nome de Deus matar o próprio Deus e substitui-Lo por um simulacro encerrado nos limites da sua imaginação humana. Aqueles que defendem a lei, obra das suas mãos, a partir da aplicação cega dessa lei cometem a maior das injustiças: condenar o "Justo" porque não se conforma com o seu modelo de justiça. Assim morre o "Justo" e a sua morte clama pela urgência de leis que apontem para a libertação, para a justiça justa, para a promoção de toda a pessoa e para uma convergência harmoniosa dos vários valores.

Ontem garantiram-me, mais uma vez, que Alguém que marcou a nossa história e a nossa cultura, afirmou que se não aprendessemos a filosofia do serviço não descobriríamos o caminho da liberdade. Hoje fui confrontado com a tragédia da morte de Deus. Se Deus teve a incompreensível iniciativa de assumir a nossa História Humana teve de assumir as consequências dessa Sua decisão: a humanidade construíu leis e em nome dessas leis e de forma coerente julgou, condenou e cruxificou essa Iniciativa. Como sairemos deste círculo fechado? Criamos leis á nossa imagem e semelhança e em nome dessas leis justificamos a injustiça e todo o tipo de sufisticadas e eficazes estruturas de dependência. Resta-me aguardar que Deus surpreenda com nova iniciativa mais surpreendente e eficaz que a justiça humana.

segunda-feira, 29 de março de 2010

incrível

Um artesão com a arte de carpinteiro, um burrito, umas vestes a servir de albarda, umas crianças e uns populares ostentando alguns ramos de oliveira e de palmeira e aí temos um acontecimento, que, pasme-se, continua a ser relembrado dois milénios passados. Ou a História enlouqueceu, ou o anedótico virou sucesso, ou o contraponto aos padrões dominantes foi de tal forma escandalizante que provocou uma gargalhada tão sonora que chegou aos ouvidos de muitos dos meus contemporâneos. E o que mais surpreende é que alguns dias depois este carpinteiro é acusado de ser aclamado como rei, de subverter a ordem estabelecida, de ter a louca ousadia de se afirmar filho de Deus e de conviver com os marginais. Os detentores do poder político, do poder religioso e do poder económico, alicerçados na ordem imposta e na moral de conveniência, não gostaram da ousadia, do ridículo, da loucura e da fantasia espontânea. Não se podia jogar impunemente com os alicerces considerados inamovíveis. Há fantasmas que não podem ser acordados, por isso esperem mais ums dias para verificar que nesses tempos a justiça funcionava célere e era cumpridora eficiente da lei.

domingo, 14 de março de 2010

Gerir o ingerivel



A semana que terminou e a que começa estão sob a influência, não sei se benévola ou se malévola, do Orçamento do Estado para 201o e da discussão do Plano de Estabilidade e Crescimento para o triénio seguinte. Veremos se o referido orçamento é mais que um "urçamento" e se o procurado "PEC" não se transformará num "pic"(plano de instabilidade crescente). É certo que "casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão"e que adiar a tomada de decisões inadiáveis não resolve nenhum problema. Importa que as decisões sejam ponderadas, concertadas e implementadas com sentido de responsabilidade. As doenças graves não têm curas rápidas e a ausência de perspectivas e objectivos claros não mobiliza para a recuperação consistente. Tudo isto são lugares comuns e por isso é difícil compreender porque é necessário tanto paleio para concluir o que é demasiado óbvio. Parece haver sempre mais uma razão para protelar: umas vezes é porque a esquerda está partida, outras porque a direita está anémica, outras porque o centro é gelatinoso e outras ainda porque um corpo com estas mazelas é incapaz de definir com sucesso e em tempo útil qualquer objectivo mobilizador. Quanto mais "papas de linhaça" mais a infecção avança. Quanto mais fantasmas a atormentar-nos, mais vampiros a sugar o pouco sangue do corpo colectivo.
Quer nos reconheçamos como crentes ou descrentes, quer por motivações sociais ou também religiosas, o certo é que estamos todos em tempo de efectiva quaresma e num tempo em que, quer queiramos quer não, todos somos chamados a algum jejum a favor do corpo colectivo. E se assim é que o façamos de forma assumida e não como cativos levados acorrentados para uma qualquer babilónia. A aurora da vida chegará, só não sei se ao terceiro dia, se ao terceiro ano, ou se é preciso que passe esta geração que se ufana de ter como paradigma de sucesso o"ter" por qualquer meio e o "poder" por qualquer preço.

domingo, 7 de março de 2010

Raizes



Neste fim de semana fui especialmente sensibilizado para a figura de Moisés. Moisés foi sem sombra de dúvida uma das figuras primeiras da história da civilização judaico-cristã. Da simbiose entre as culturas mesopotâmicas e egípcia surgem, por acção de Moisés, as bases que, juntamente com a herança greco-romana, constituem os alicerces sobre que assenta a nossa cultura ocidental e por osmose, e com várias tonalidades, o melhor do pensamento humano. Moisés formalizou esse transcendente e actual código de direito social e religioso que são os "Mandamentos". Os Mandamentos são essa sarsa ardente que não se consome. Moisés concluiu, sem margem de dúvida, que a relação com Deus passa pela libertação do Povo e que a libertação do Povo se processa pela fidelidade à relação com Deus. Os seres humanos têm de ser motivados a sair da situação de escravidão e a visão de Deus tem de ser purificada da noção de domínio e da noção de ausência. Tudo isto está expresso no terceiro capítulo do livro do Êxodo: " vi a aflição do Povo e desci para o libertar" e dirás ao Povo que "EU SOU AQUELE QUE È". A centralização na noção de "SER" deixa de dar a primazia ao "PODER" e ao "TER". Assim poderemos chegar à ideia de que a mensagem bíblica aponta para a prespectiva de que Deus é pobre e fraco, pois não necessita do poder, nem do ter, para "Ser Aquele que È". Como poderia então Jesus estar de outro lado que não do lado dos pobres, dos fracos e dos oprimidos?